#126 – apetite virtual
sobre fomes e curtidas
no restaurante, um homem sentado sozinho
o único sem os olhos metidos no celular
olhando em detalhes o redor
como se quisesse guardar um momento especial
(e talvez fosse mesmo, como saber?)
duplas, trios, quartetos, mesas gigantes
quase nenhum burburinho, poucas conversas
telefones nas mãos, luz nos rostos
toda a urgência das coisas desimportantes
e o homem a olhar ao redor
esperava o prato como os demais
com fome mais de comida do que de telas
bebia aos poucos o refrigerante
limpava o copo suado pelo gelo
esfregava as mãos, secando uma na outra
sorria e olhava ao redor
atento a tudo e a todos
podia se demorar em cada mirada
vasculhar cada detalhe dos corpos alheios
brincar de inventar rotinas e vidas
ninguém reparava que ele olhava ao redor
menos ainda que sorria timidamente
incógnito, quase invisível
feito um móvel, um enfeite na parede, uma louça
mas um talher que sorria, como ninguém nota?
talvez se ele postasse
mas ele só olhava ao redor
se você gostou desta newsletter, que tal dizer isso ao mundo?
enquanto eu não volto...
você pode aproveitar para curtir estas dicas:
📖 salão de escrita e beleza, de juan pablo villalobos
📝 beijinhos grandes, de Mateus Habib
💿 acústico, de luedji luna
💿 ainda já (vol. 1), de ana carolina
💿 the boys of dungeon lane, de paul mccartney
por hoje é só. até mais!



Essa semana assisti um café filosófico com o Rossandro Klinjey, ele também usou o quadro do Hopper para falar sobre como as identidades se tornaram líquidas. Mas ele utilizou a licença poética para colocar nas mãos de cada personagem do quadro um celular, retrato do nosso tempo. Como seriam as pinturas hoje? Não teríamos mais esse olhar atento aos detalhes que criam a arte. Que saudade de poder olhar nos olhos e não através das telas.
Amei sua escrita! Abraço!
"talvez se ele postasse
mas ele só olhava ao redor".